Verão sob vigilância
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Estimada leitora, estimado leitor,
No nosso Global Outlook 2026, recomendámos aos nossos leitores que se preparassem para surpresas, tanto pela positiva como pela negativa. Os últimos anos demons traram que, mesmo em contextos macroeconómicos e geopolíticos complexos, os mercados podem proporcio nar ganhos inesperados. Permanecemos convictos de que os investidores se devem concentrar nos fundamen tais, manter a disciplina e evitar reações emocionais às notícias. O primeiro semestre de 2026 veio reforçar esta nossa convicção. Nesta edição de verão, analisamos três importantes surpresas e as respetivas implicações para os investidores até ao final do corrente ano.
O PETRÓLEO ENCONTRA SEMPRE O SEU CAMINHO
Em março, o impasse em torno do Estreito de Ormuz pro vocou a maior subida dos preços do petróleo das últimas décadas, tendo sido muitas as previsões de preços acima dos 150 dólares por barril. Em junho, porém, assim que foi anunciado um frágil acordo, os preços do petróleo caíram drasticamente, passando de um interesse de compra emocional (pânico) para um interesse de venda reativo (pânico). A realidade, contudo, é mais complexa. O petró leo continua a fluir. Alguns navios conseguiram atravessar o Estreito desligando os transponders ou seguindo rotas próximas de Omã. Também foram utilizadas capacidades de transporte adicionais, nomeadamente oleodutos como o Yanbu (Arábia Saudita) e o Fujairah (Emiratos Árabes Unidos). O aumento da oferta com origem nos Emiratos Árabes Unidos, subsequente ao abandono da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), e a dispo nibilidade do Iraque para aumentar as suas exportações deverão contribuir para reduzir o défice. Na vertente da procura, a significativa redução da procura por parte da China, apoiada nas suas grandes reservas e numa clara estratégia de redução da dependência dos combustíveis fósseis, significa que a dinâmica da oferta/procura não é tão dramática como se temia. Em resumo, o petróleo não deixou de fluir e continua a encontrar novas rotas. Conforme salientado na nossa edi ção de março, as infraestruturas associadas a oleodutos/ gasodutos estão a converter-se num ativo geopolítico decisivo, já que reduzem a dependência de pontos de estrangulamento como o Estreito de Ormuz.
O DILEMA DOS BANCOS CENTRAIS
O acentuado aumento dos preços da energia representou um desafio para os bancos centrais. Será que uma subida das taxas diretoras poderá controlar o impacto do petró leo nos preços? Provavelmente não. Poderá um banco central ganhar credibilidade ao aumentar as taxas de juro para garantir a estabilidade dos preços? Certamente, mas isto cria um dilema. O Banco Central Europeu (BCE) optou por uma única subida das taxas e, na nossa opinião, não serão necessárias novas subidas, se bem que a estabi lidade dos preços continue a ser o seu único mandato. No caso da Reserva Federal (Fed), a situação é diferente. Os dados da inflação de junho vieram trazer algum alí vio, uma vez que os efeitos secundários dos preços do petróleo têm sido, até ao momento, limitados. Refira-se que todos os 67 economistas inquiridos pela Bloomberg antecipavam uma inflação mais elevada, mas a verdade é que se enganaram. Como resultado, o presidente da Fed, Kevin Warsh, pode manter uma postura firme, salientando a “tolerância zero” em relação à inflação elevada, sem ter de subir as taxas de juro. De salientar que as expetativas de inflação a um ano caíram abaixo dos 2% pela primeira vez durante o mandato Trump 2.0. Embora os mercados antecipem um ou dois aumentos das taxas no corrente ano, pensamos que a Fed as irá manter inalteradas e que o limiar para um novo aperto monetário continua a ser elevado.
SERÁ QUE O OURO PERDEU O BRILHO?
A surpresa mais desagradável deste ano talvez tenha sido a acentuada reviravolta sofrida pelo preço do ouro, que caiu de um máximo de 5.500 dólares para os 4.000 dólares registados no início de julho. Será que o ouro per deu a sua atratividade enquanto ativo de diversificação? Pensamos que não. A crise no Médio Oriente levou alguns bancos centrais a vender ouro para reconstituir as suas reservas em dólares e, assim, apoiar as suas moedas, como foi o caso da Turquia e da Rússia, que venderam 81 e 34 toneladas, respetivamente. No entanto, perspetiva-se que uma nova onda de compras esteja a surgir. Embora os fluxos de capitais para os fundos negociados em bolsa (ETF) de ouro ocidentais tenham sido negativos no pri meiro semestre (-7,7 mil milhões de dólares), os fluxos para os ETF de ouro asiáticos têm sido robustos (+12 mil milhões de dólares). Após ter reduzido as suas compras de ouro em 2025, devido à subida acentuada dos preços, o Banco Popular da China retomou as compras neste ano, nomeadamente em junho, o mês com maior volume de compras dos últimos 20 meses. Acreditamos que, no corrente ano, as aquisições da China irão ultrapassar as 100 toneladas, o que representa o triplo do volume do ano transato. Este interesse renovado de procura deverá constituir um apoio significativo para o mercado do ouro, uma vez que a China se mostra cada vez mais sensível aos preços no contexto da diversificação das suas reservas.
Votos de uma leitura enriquecedora e de umas excelentes férias de verão, tendo em mente que este verão decorre sob cuidadosa vigilância.
Monthly House View, 01.08.2026. - Excerpt of the Editorial
04 agosto 2026
