A nova era do investimento
The Monthly House View:
| English | French | Spanish | Italian |
| Chinese | Portuguese (Portugal) | Portuguese (Brazil) | Dutch |
Estimada leitora, estimado leitor,
Durante anos, a narrativa dominante na macroeconomia girou em torno da estagnação secular: um mundo rico em ideias, mas pobre em investimento. Enquanto a inovação ganhava força, os investimentos de capital estagnaram, do que resultou um crescimento apático da produtividade, a qual, em algumas regiões, sofreu mesmo um retrocesso. Este paradoxo definiu o período subsequente à crise financeira global. Hoje, porém, a narrativa é diferente. Estamos a assistir a uma aceleração das despesas de capital a nível mundial, o que renova as perspetivas de uma recuperação sustentada da produtividade.
Qual o motivo para esta reviravolta? A resposta reside na convergência de forças poderosas que estão a redefinir os incentivos empresariais.
Em primeiro lugar, a vanguarda tecnológica, nomeadamente a inteligência artificial (IA), está a transformar a economia do investimento. A IA não só oferece vantagens em termos de automatização, mas também abre novas vias para o desenvolvimento de produtos e modelos de negócio. Para muitas empresas, é uma oportunidade para repensar os seus processos. As previsões relativas aos retornos dos investimentos em infraestruturas digitais, ecossistemas de dados e capacidades de computação registaram um significativo aumento. Neste contexto, adiar o investimento envolve um risco de obsolescência.
Em segundo lugar, o panorama geopolítico alterou o processo de tomada de decisões nas empresas. Desde a pandemia de COVID-19, as empresas têm sofrido choques repetidos, nomeadamente perturbações nas cadeias de abastecimento, tensões comerciais e o recurso crescente a instrumentos económicos como meio de pressão geopolítica. O resultado é uma maior ênfase na resiliência e na autonomia estratégica. A eficiência, desde há muito promovida através da otimização global, é agora ponderada numa perspetiva de segurança do abastecimento e de continuidade operacional. Esta mudança envolve, por natureza, maiores despesas de capital, dado que requer a relocalização da produção, a duplicação de linhas de produção e o investimento em redes alternativas de logística e aprovisionamento.
Esta dinâmica é abordada no nosso artigo “Em Foco” (página 8), que analisa a resposta do setor dos transportes marítimos à situação no Estreito de Ormuz. As vulnerabilidades nos pontos de estrangulamento já não podem ser consideradas como riscos de cauda. Em vez disso, exigem medidas proativas de mitigação do risco mediante o investimento em infraestruturas, por um lado, e a diversificação estratégica, por outro.
O financiamento desta vaga de despesas de capital constitui um aspeto crítico da nova era. Conforme analisado em “Perspetivas de Mercado” (página 10), cada vez mais empresas estão a recorrer aos mercados de capitais, em alternativa ao autofinanciamento ou ao endividamento. Esta tendência reflete a dimensão das necessidades de investimento.
Ao mesmo tempo, os bancos centrais continuam a ser um fator de estabilização. Desde 2022 que as suas intervenções são reveladoras de um claro compromisso com a estabilidade dos preços e a independência institucional e, face ao ressurgimento das pressões inflacionistas no corrente ano, mostraram-se preparados para agir de forma decisiva. Na nossa opinião, a credibilidade dos bancos centrais estabiliza as expetativas de inflação e ajuda a conter o risco de que a atual explosão dos investimentos se traduza por pressões sustentadas sobre os preços.
No seu conjunto, estes elementos apontam mais para uma mudança estrutural do que para uma recuperação cíclica. A combinação entre oportunidades tecnológicas, necessidades geopolíticas e adaptabilidade financeira está a impulsionar um ciclo de despesas de capital abrangente e duradouro. Ao contrário do que acontecia em décadas anteriores, o investimento já não é travado pela eventual diminuição da procura ou pela falta de confiança das empresas, sendo, agora, impulsionado por uma imperiosa necessidade de adaptação.
A nossa estratégia de investimento reflete esta nova realidade. Continuamos otimistas em relação às ações, uma vez que as empresas bem posicionadas para beneficiar desta onda de despesas de capital (e para aplicar eficazmente esse capital) deverão proporcionar rendimentos superiores. Ao mesmo tempo, este contexto complexo exige uma diversificação sólida em vários setores e regiões.
Após anos de hesitação, a economia mundial parece ter redescoberto o poder do investimento. Caso se mantenha, este ciclo de despesas de capital poderá marcar o início de uma nova era de crescimento da produtividade e o fim definitivo da narrativa de estagnação que, antes, parecia bem enraizada.
Esperamos que considere a edição deste mês interessante.
Monthly House View, 01.07.2026. - Excerpt of the Editorial
30 junho 2026
