O ano do Cavalo de Fogo

Da macroeconomia à atividade dos bancos centrais, passando pela geopolítica, 2026 prepara-se já para ser um ano cheio de surpresas. Em apenas algumas semanas, já assistimos a uma sucessão de grandes eventos. A inflação nos Estados Unidos continua a baixar, com a inflação subjacente nos 2,6%, enquanto a taxa de desemprego desceu ligeiramente para 4,4%. Ao mesmo tempo, os riscos geopolíticos voltaram ao centro das atenções, com a Venezuela, o Irão e a Gronelândia a ocuparem um lugar de destaque. Apesar destes desafios, o contexto macroeconómico mantém-se globalmente favorável, ainda que persistam tensões. No entanto, o desenvolvimento mais significativo reside numa pressão sem precedentes sobre a Reserva Federal dos EUA (Fed).


A FED SOB PRESSÃO

Numa iniciativa de caráter excecional, o Departamento de Justiça dos EUA abriu uma investigação criminal contra o presidente da Fed, Jerome Powell, envolvendo a renovação da sede da Fed por um montante de 2,5 mil milhões de dólares. A resposta da Fed foi igualmente histórica. Jerome Powell dirigiu-se à nação, reafirmando que as decisões de política monetária continuarão a basear-se em dados económicos objetivos. Teve, porém, o cuidado de não mencionar a palavra “independência”, um sinal subtil, mas marcante, de uma liderança sob pressão.
O inquérito incide num excesso de custos de 700 milhões de dólares relativamente à estimativa inicial de 2017. Embora não sejamos especialistas em renovações, constatamos que as derrapagens orçamentais se tornaram frequentes desde o período inflacionista pós-COVID. Segundo o Financial Times, Jerome Powell respondeu plenamente às perguntas colocadas pela Comissão Bancária do Senado, o que complica as alegações da administração de que Jerome Powell induziu o Congresso em erro.


UM APOIO INÉDITO

A reação imediata foi notável. Onze governadores de bancos centrais publicaram uma carta conjunta expressando a sua “total solidariedade” com Jerome Powell e sublinhando que “a independência dos bancos centrais é uma pedra angular da estabilidade dos preços e da estabilidade financeira e económica, isto no interesse dos cidadãos que servimos”.
Jerome Powell, um republicano de longa data, também tem contado com o apoio bipartidário, nomeadamente do senador Thom Tillis, membro da Comissão Bancária do Senado, que ameaçou bloquear qualquer nova nomeação para a Fed até que a situação jurídica seja esclarecida.
Este caso poderá, assim, virar-se contra a administração norte-americana com importantes consequências políticas e institucionais. O mandato de Jerome Powell como presidente da Fed termina em maio de 2026, enquanto o seu mandato como governador termina em 2028. É raro que um ex-presidente permaneça no Conselho de Governadores, mas, neste caso, Jerome Powell poderá optar por fazê-lo, a fim de preservar a integridade da instituição. Antecipamos que, enquanto se aguarda pela resolução desta situação, o dólar norte-americano permaneça vulnerável e que as taxas de juro da dívida pública dos EUA continuem elevadas e voláteis, refletindo expetativas de inflação acrescidas e uma menor confiança na atual administração. O ouro deverá continuar a beneficiar de um ambiente marcado pelas incertezas, em que bancos centrais e investidores institucionais e particulares procuram diversificação e fontes alternativas de rendimento.
É evidente que o próximo presidente da Fed terá de dar provas de uma verdadeira independência, enquanto o Senado terá um papel fundamental no processo de nomeação. Os desafios continuam a ser consideráveis.


ALGUMAS PALAVRAS SÁBIAS

De regresso da Ásia, um mestre de Feng Shui recordou-me, durante a nossa apresentação do Global Outlook 2026, que o ano do Cavalo de Fogo simboliza ousadia, transformação e inovação. É um período propício para tirar partido das oportunidades, embora também se devam evitar as decisões impulsivas. O sucesso exigirá clareza, planeamento rigoroso e bons conselhos. Por isso, num mundo em constante mudança, o conselho é “pés bem assentes na terra, uma postura flexível e uma visão de longo prazo”, especialmente quando se trata de investimentos.

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Monthly House View, 23.01.2026. - Excerpt of the Editorial

04 fevereiro 2026

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